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Comer ou não comer? – Por Danilo Rolim

Danilo Rolim 4 de fevereiro de 2014
Comer ou não comer? – Por Danilo Rolim

Pensar demais sobre certas coisas pode causar sérios problemas. Um soldado oplita espartano era, por isso, bem treinado para não fazê-lo. Afinal, a linha de frente de uma falange não é o lugar ideal para questionamentos profundos do tipo “por que estou aqui?”, “qual o sentido da vida que, muito provavelmente, estou prestes a perder?” ou “que resultado kármico vou gerar matando essas pessoas contra quem não tenho nada em particular?”.

Outro exemplo disso está em um dos meus momentos preferidos do humor britânico, o sketch em que William Shakespeare (interpretado por Hugh Laurie – o Dr. House) tem uma conversa com seu produtor (Rowan Atkinson – o Mr. Bean) sobre Hamlet. “São cinco horas, Bill”, diz o produtor, “em bancos de madeira! E sem banheiros públicos deste lado do Tâmisa!”. O tamanho da referida peça é devido em grande parte ao fato de o príncipe da Dinamarca pensar demais. Se ele tivesse aceitado a palavra do fantasma de seu pai de uma vez, a tragédia mal chegaria ao segundo ato. Mesmo no terceiro, há uma ótima oportunidade de matar Cláudio, que ecurtaria em muito a peça e as críticas de Bárbara Heliodora. Mas não, Hamlet pensa, reflete e hesita durante mais de quatro mil versos e a morte de um bom punhado personagens até, finalmente, vigar o assassinato de seu pai.

Voltando à temática desta coluna, há várias pessoas que, talvez sabiamente, preferem não pensar nos detalhes sobre sua comida. Se você é uma dessas pessoas, é melhor que pare de ler por aqui. Uma boa semana!

Consideremos o queijo. Ele é feito de leite – secreção das glândulas mamárias de ruminantes (já viu uma vaca ruminando?) – e coalho, obtido do muco estomacal de outros ruminantes com menos sorte. A mistura, então, pode passar por incontáveis formas de apodrecimento e fermentação até chegar ao ponto ideal. Queijo, é bem sabido, não estraga, muda de nome.

Dizem que se você vir como se faz salsicha, nunca mais come cachorro-quente. Já tendo testemunhado o processo, posso garantir que não é o caso, pelo menos para mim.  Sim, a produção envolve cortes de carne que, se apresentados como refeição a crianças mais sensíveis, podem garantir anos de estabilidade financeira a legiões de psicólogos. Sim, a preparação requer mais gordura do que é cardiologicamente recomendável. E sim, o aroma na fase de produção não é exatamente de rosas. Mas a homogenização dos ingredientes é quase mágica e a injeção da massa nas tripas é de um ludismo mesmerizante. Prepare sua própria salsicha e saberá do que estou falando.

Já a ideia de beber um líquido fermentado a partir de mandioca mastigada e cuspida por velhas índias pode não estar em conformidade com as mais atuais portarias da vigilância sanitária, no entanto, isso não impediu que gerações de tribos celebracem com seu cauim. Eu provaria, sem pensar muito a respeito.

E se há uma coisa sobre a qual eu certamente não quero pensar muito é o que acontece na cozinha de um de meus restaurantes preferidos, o Chi Fu, no bairro da Liberdade. As garçonetes têm a mesma fluência em português que o Tenente Aldo Raine tem em italiano, eu sei. Qualquer grupo de començais com menos de meia dúzia é recebido com estranheza e corre o risco de ser acomodado na mesa de desconhecidos também desavisadamente em pequena comitiva, eu sei. Já o que acontece da boqueta para dentro, que opinião a polícia federal e o ministério público do trabalho têm sobre os empregados e que peripécias contábeis envolvendo ou não a máfia chinesa permitem que pratos sejam tão bons e baratos, eu não sei. E creio que não queira saber. A ignorância pode ser uma deliciosa dádiva.

 

Salsicha Tipo Viena 

1kg de carne de porco magra (pode incluir 50% de miúdos variados, v.g, rim, bofes, coração etc.)

1kg de gordura de porco gelada em cubos

500g de gelo picado mais o necessário para manter os utencílios gelados

40g de sal

2g de conservante para embutidos (vendido em lojas especializadas, pode ser omitido, mas com perda de durabilidade da salsicha)

20g de açúcar

8g de cebola em pó

4g de pimenta do reino branca em pó

5g de mostarda em pó

3g de noz moscada em pó

1g de alho em pó

Cerca de 6m de tripa de porco fina seca

 Modo de Preparo

- Enxague bem as tripas e deixe-as de molho enquanto prepara a salsicha.

- Misture a carne picada, a gordura, o sal, o conservante e o açúcar e leve ao congelador até que estejam quase congelados.

- Enquanto isso, deixe as partes móveis do processador num banho de água e gelo.

- Processe a mistura de carne e gordura até que se transforme numa pasta homogênea e adicione o gelo picado e os temperos e processe mais uma vez, por cerca de um minuto ou até que a massa esteja bem lisa.

- Se não couberem todos os ingredientes, faça aos pouco, mas tomando o cuidado de manter as proporções entre carne, gordura, temperos e gelo. Gele novamente o processador a cada porção que for feita.

- Coloque a massa em um saco de confeiteiro com bico simples e largo, quase da largura da tripa. Amarre uma das pontas da tripa e “vista”-a no bico do saco. Se tiver um enchedor de linguiça, parabéns, use-o.

- Encha cuidadosamente a tripa para não estourá-la. Atingindo o tamanho desejado, torça a salsicha e amarre o intervalo entre esta e a próxima com barbante de cozinha. Repita o processo até o fim da tripa e amarre o final.

- Cozinhe as salsichas em água a 80ºC por 15min. Retire da água e deixe esfriar.

- Pode ser guardada por até uma semana na geladeira (três dias sem usar o conservante). Pode ser então reaquecida em água fervente ou usada em churrasco. Ideal para o melhor cachorro-quente da sua vida!