Jornal Itapeva Times O filho da prostituta - Por Carolina Vila Nova - Jornal Itapeva Times

O filho da prostituta – Por Carolina Vila Nova

João Vincenzo 30 de outubro de 2014
O filho da prostituta – Por Carolina Vila Nova

Onze anos atrás trabalhei numa cidade, dentro de uma área perto de vários prostíbulos. A miséria da região era visível: na pobreza, no comportamento e na presença de drogas. Como meu filho ainda era criança, acabamos conhecendo um menino que era filho de uma de nossas clientes, na empresa onde trabalhava. A mulher era prostituta e não tinha boa aparência. O menino, por sua vez, era muito bonito e educado. Apesar da pobreza que vivia ali, ele parecia se sobressair de todas as formas.

Sabia do que sua mãe vivia e no máximo sentia pena de sua condição. Afinal, não consigo imaginar se o amor que ele recebia, era o bastante para compensar sua realidade tão única e provavelmente difícil.

A mãe do menino era baixa, tinha cabelos curtos e estava sempre desarrumada. Ela era gordinha e usava calças de moletom com camisetas largas por cima, sem sutiã, mostrando também o mau trato de seu corpo. Às vezes era possível ver os pelos longos que vinham de suas axilas. Ao mesmo tempo em que a mulher era desleixada com si mesma, o contrário parecia acontecer em relação ao seu filho. O menino estava sempre limpo e arrumado, falava bem e parecia não se importar com a aparência de sua mãe. Eu nunca consegui perceber se ele se sentia incomodado ou não.

O tempo foi passando e o menino frequentava nossa casa e meu local de trabalho. No aniversário de dez anos de meu filho lá estava ele, se integrando com todas as crianças do colégio particular. Apesar da diferença social, ele não tinha dificuldade alguma em interagir com os demais. Eu acho que sempre o olhava intrigada, tentando entender o que sentia. Eu sei que me sentia penalizada por ele.

Em outra ocasião, o menino deu prova da nobreza de sua alma. Tínhamos um gato persa adorado, o “Peruca”. Ele sumiu. Naquele dia, com uma foto, começamos a bater de porta em porta, perguntando sobre o bicho. A agonia de meu filho era nítida, e acho que a minha também. Então o menino teve uma brilhante ideia. Ele venderia seu skate, para termos dinheiro a oferecer como recompensa. Ele queria mesmo ajudar.

Apesar da nobre boa vontade, é claro que não aceitei. Encontramos o gato a noite, escondido numa fábrica ao lado de onde morávamos. Todos ficamos felizes, pois tínhamos trabalhado em grupo por horas, em prol de sua busca.

Não fiquei muito tempo naquela cidade. Hoje, depois de tantos anos me sinto muito mal por ter esquecido seu nome. Mas não esqueci seu rosto. E menos ainda seu gesto tão grande, apenas aos dez anos de idade. Acho que gostaria de saber como ele está, mas nem faço ideia como encontrá-lo.

De consciência pesada me lembrei, de que ele me deu algo muito especial. Sua foto feita na escola, a qual ele provavelmente nem tinha uma cópia. Ele deu para mim, e não para sua mãe.

Eu fiz muito pouco pelo menino. Abri as portas da minha vida em família para ele enquanto estive lá. Admirei sua força e integridade mediante sua dura realidade. O menino era pequeno, mas de uma grandeza interior que não consigo esquecer.

Ele me ensinou em pouco tempo, que nem toda nobreza vem de berço. E que ainda com toda falta de sorte, alguns realmente se sobressaem, agem como gente grande e são verdadeiros nobres de alma.